sábado, 23 de fevereiro de 2019

O que podes controlar

Podes controlar:

1. Aquilo em que acreditas
2. A tua atitude
3. Os teus pensamentos
4. Os teus pontos de vista
5. A tua honestidade
6. Quem são os teus amigos
7. Os livros que lês
8. O exercício que fazes
9. O tipo de comida que escolhes
10. Os riscos que corres
11. Como interpretas cada situação
12. O bem que fazes aos outros
13. O bem que fazes a ti próprio
14. As vezes que dizes “gosto de ti”
15. As vezes que dizes “obrigado”
16. Como exprimes os teus sentimentos
17. Se pedes ajuda ou não
18. Se praticas a gratidão
19. As vezes que sorris
20. O esforço que fazes
21. Como gastas ou investes o teu dinheiro
22. O tempo que gastas a preocupar-te
23. As vezes que pensas no teu passado
24. Se julgas ou não os outros
25. Se depois de uma desilusão voltas a tentar
26. O quanto te contentas com o que tens.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Acabou-se o tempo de pensar no tempo

A universalidade do tempo não é o que parece e a vida na terra para os mais velozes não se cinge apenas a mudar de fuso horário. O tempo está por toda a parte, principalmente dentro de nós e se sabemos quanto medimos, devíamos saber quanto demoramos e às quantas andamos.

Falta pouco para o tempo se tornar oficialmente dimensão. Somos circunstância única, a todo o momento, nós imperfeitos e irrequietos seres humanos, e tantas fizemos que acabámos por perceber que comprimento, largura e altura - leia-se x, y, z - têm mais o amigo tempo, inaugurando formalmente a assumpção de que não se trata mais de uma espécie de etiqueta acessória, como se de uma curiosidade se tratasse, para juntar à chamada localização espacial. Tudo é tempo também. Sem o tempo, deixaremos de estar, de ser e de provar que estamos onde estamos. Por outro lado, estaremos muito mais à vontade e esclarecidos sobre o que a vida nos mostra e sobre a forma como afinal a vivemos. Duas pessoas de mãos dadas podem estar em realidades bem diferentes, cada uma em seu registo, e há constatações que só não fazemos porque não queremos. Quando estamos ansiosos em relação a alguma coisa ou alguém - o nascimento de um filho, por exemplo -, sabemos que o tempo é o mais lento de todos e não há como encurtá-lo, espécie de deserto de todas as provações que temos de suportar devagar e com detalhe de ourivesaria. Registamos tudo e tudo nos parece supérfluo, aquilo que verdadeiramente desejamos que aconteça insiste em não acontecer. A novidade é tão grande quando se consuma que quase temos de alterar tudo para abranger o choque do inteiramente novo. Nem tem de ser dramático, pode até ser a espera para uma consulta médica, o muro é alto e forte até que de um momento para o outro se desmorona, sem som nem ruído, como se nunca lá tivesse estado. No extremo oposto está aquela situação em que todos já nos vimos de uma forma ou outra, atrasados para um compromisso, apanhar um avião ou ir buscar os miúdos à escola. Dávamos a alma para ser senhores do tempo e travar todos os relógios mas nada feito, em vez disso há uma espécie de conspiração, todos em conjunto decidiram acelerar e tramar-nos até ao fim; não há estado anímico que nos puxe para cima e devolva a autoestima, vamos mesmo ao tapete, KO técnico do tempo de que só nos livramos com lágrimas, gritos, ou reacções disparatadas como por exemplo mentir. Depois das crises - há sempre um depois em todas as crises - o mundo volta a ser colorido e as caras para que olhamos voltam a parecer sorridentes. O tempo tem tempos terríveis e o peso gigante da tristeza enterra-o nas funduras mais profundas da existência. Além de não ser recomendável estarmos tristes, a tristeza é avassaladora e mete-se no relógio, a vida interior das emoções distorcidas fica desproporcionada em relação ao tempo que pelo efeito depressor insiste em não passar. E passa depressa demais quando estamos apaixonados por alguém, felizes com algum acontecimento ou eufóricos por uma qualquer esperança que alimentamos.
O tempo é também a consciência dele e se somos feitos de emoção, é isso que o tempo é: emocionante. Einstein desenvolveu ele próprio várias analogias das suas teorias da relatividade - restrita e geral - para conseguir explicar a leigos e não-iniciados o assunto central da relatividade e do tempo. A mais cândida e simples instrução que deu a certa altura à sua secretária para comunicar rapidamente o significado da relatividade, foi a de que uma hora sentado no parque ao lado de uma mulher bonita passa em cinco minutos, enquanto um minuto sentado em cima de um forno quente parece uma hora. Descontado o lado divertido, é exactamente assim que as coisas se passam. Usamos relógios para cronometrar os acontecimentos mas na verdade cada um vê o que se passa no seu próprio relógio, a sincronização é um desafio tenebroso, de que decorre grosso modo que no limite o tempo é mesmo subsidiário, cada pessoa ou grupo de pessoas tem o seu. Demonstrada e estabelecida que ficou a teoria da relatividade restrita de Einstein em 1905, pouco mais de uma década depois surgia a teoria geral da relatividade, postulando o espaço-tempo como curvo, aspecto que não cabe aqui evocar, mas expondo a evidência inelutável de que o tempo é uma dimensão natural do espaço. A matemática portuguesa do Instituto Superior Técnico Ana Cannas da Silva, actualmente a trabalhar na famosa ETH de Zurique, a mesma onde oficiou Einstein e outros cientistas notáveis, ocupa-se de sondar e demonstrar o tempo como dimensão do espaço. A geometria simplética, de que é especialista profunda e que basicamente consiste em reduzir à forma mais simples certos problemas para pela geometria chegar a soluções. Estamos a simplificar demais, claro, e claro que é tudo menos simples, mas é confortável saber que há uma portuguesa excepcional na crista da onda do conhecimento do tempo e do quanto nos pode simplificar a vida. O psicólogo Vítor Rodrigues desenvolveu o assunto do tempo num quadro que nos parece ainda mais inverosímil do que o da curvatura do espaço-tempo: a estupidez humana. Há mesmo uma área do conhecimento e pesquisa que se dedica ao estudo dessa-outra existência que é aliás transversal e comum a todos nós. Na sua tese de doutoramento, teoria geral da estupidez humana, mostra como a estupidez pode fazer ganhar tempo. O caso do despertador que toca e um homem adormece, para acordar meia hora depois e dizendo mal da vida, de tudo e todos faz a barba, toma banho, veste-se e conduz, tudo num décimo do tempo normal e ainda chega ao trabalho mais cedo do que o normal. Quanto mais rápido andamos no espaço, mais devagar andamos no tempo. Resultado que todos experimentámos na pele pelo menos uma vez.
O assunto do tempo aproxima-nos do conceito de Deus, das igrejas e dos seus líderes e de certa forma interferir ou sequer tentar perceber é um pouco como “brincar a Deus”. As inquisições condenaram e mataram muita gente por desafiar a regra divina dos dias contados e dos calendários estabelecidos. Foi contundente e marcante, contudo a bula “inter gravissimas” publicada em 1582 pelo papa Gregório XIII. Apoiado em estudos e pareceres dos astrónomos seus consultores havia que ajustar a duração dos anos. Portugal, diligente e obediente, adoptou de imediato o calendário que é ainda aquele por que nos regemos. Nele estão contempladas singularidades como a duração dos meses e o ajuste dos dias do mês de Fevereiro, que de quatro em quatro anos tem menos um dia que nos restantes. É notável a resistência que ao longo de mais de quatrocentos anos as nações ofereceram ao calendário gregoriano. A China foi a última, em 1949 a reconhecer e adoptar o andar global do tempo de acordo com o calendário gregoriano. Temos neste momento o mundo inteiro a reger-se por uma base de tempo que lhe permite comunicar, viajar entre pontos distantes sem descontinuidades. É notável que tenha decorrido tanto tempo até que o tempo se estabelecesse finalmente como base e plataforma, sem misticimos nem preconceitos. Mas é também notável que se tenha chegado a um mundo com um tempo apenas e que tenha nascido de pressupostos científicos e confirmado depois na vida das populações. O almirante Gago Coutinho, homem esclarecido e de ciência, não só teve dúvidas como ofereceu grande resistência à teoria da relatividade de Einstein, mas acabou por se lhe render. O próprio espírito científico que o animava levou-o mesmo mais longe e acabou por publicar um livro onde explicava com a simplicidade dos grandes divulgadores de que tratava e constava a relatividade e as implicações no tempo e na observação dos fenómenos. O livro é pequeno mas conciso e depois de expor através de capítulos temáticos, diagramas e desenhos, conclui com uma mensagem apaziguadora para o leitor: a de que à velocidade a que normalmente nos movemos na terra, em comparação com a velocidade da luz nada nas nossas vidas se altera significativamente. Sabemos hoje que é ao contrário. E como.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Intensamente parado

Silenciosa Música do Cosmos

As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina

(Mário Dionísio)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Pedras que falam, penedos surdos

Viajamos até longe para ver e ouvir pedras que temos por sábias. Para os sábios que muitas vezes temos ao lado somos autênticos penedos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Para João Lobo Antunes

In memoriam, dois anos depois da sua morte


João Lobo Antunes
Nada nem ninguém segura uma pessoa quando o destino e a morte a reclamam de forma veemente. A Mafalda escapou-se-nos por entre os dedos em Agosto de 88, com um aneurisma no tronco central do cérebro, no Hospital de S. José. As primeiras mãos em que toquei, o primeiro beijo, a primeira casa, o casamento daí a três meses. Tentámos encontrar o João LA mas ele estava de férias. O Dr. Resina Rodrigues, irmão do meu grande professor Pe. João Resina Rodrigues, foi-se dando por vencido, ao perceber a sua impotência no caso. Era inoperável. Anos mais tarde calhou-me a mim a sorte das urgências da CUF, com suspeita de tumor cerebral. Já conhecia o João LA melhor, entrevistei-o duas vezes e convivi com dois irmãos seus. No meio do que me pareceu uma trombose, saí para a rua a arrastar uma das pernas, meti-me num táxi e fui para a CUF. Não queria repetir o insucesso em encontrar o João LA no caso da Mafalda. E lá estava ele à minha espera, eu paralisado já do lado direito, boca à banda. Olhou para a TAC e falou comigo. Se tens um tumor temos de tirar, mas eu penso que não tens. Para já, tens de sair para sempre do sítio e das pessoas que te fizeram isto. Deu-me um papel e uma caneta para escrever o meu nome e eu não consegui nem a primeira letra. Um mês longe de casa, bem longe arranjar uma nova vida em Lisboa. Depois chamou a mulher com quem eu estava casado e perguntou-lhe o que é que você lhe fez. Fui para Guimarães e nas minhas costas ela fez-me o pior, estabeleceu as bases da minha ruína sem qualquer pudor. O João LA chegou lá primeiro, depois aprendi a viver com a hidrocefalia que pelos vistos tenho desde que nasci. Não sei se estou a faltar-lhe nalguma coisa por estar a revelar pela primeira vez uma conversa privada, mas é a forma que encontro para fazer uma homenagem ao médico gigante e ao grande amigo que soube ser. Encontramo-nos aí em cima, João. Obrigado.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Sobre amor e desejo

Na língua natural do amor:

Au bout de l’amour il y a l’amour.
Au bout du désir il n’y a rien.
L’amour n’a ni commencement ni fin.
Il ne naît pas, il ressuscite.
Il ne rencontre pas. Il reconnaît.

Il se réveille comme après un songe
Dont la mémoire aurait perdu les clefs.
Il se réveille les yeux clairs
Et prêt à vivre sa journée.
Mais le désir insomniaque meurt à l’aube
Après avoir lutté toute la nuit.

Parfois l’amour et le désir dorment ensemble.
Et ces nuits-là on voit la lune et le soleil.

(Liliane Wouters)

sábado, 8 de setembro de 2018

Ama-se a palavra

"Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas".

Agustina Bessa Luís, Contemplação carinhosa da angústia, Guimarães Editores, 2000.