segunda-feira, 12 de novembro de 2018
Pedras que falam, penedos surdos
Viajamos até longe para ver e ouvir pedras que temos por sábias. Para os sábios que muitas vezes temos ao lado somos autênticos penedos.
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
Para João Lobo Antunes
In memoriam, dois anos depois da sua morte
João Lobo Antunes
Nada nem ninguém segura uma pessoa quando o destino e a morte a reclamam de forma veemente. A Mafalda escapou-se-nos por entre os dedos em Agosto de 88, com um aneurisma no tronco central do cérebro, no Hospital de S. José. As primeiras mãos em que toquei, o primeiro beijo, a primeira casa, o casamento daí a três meses. Tentámos encontrar o João LA mas ele estava de férias. O Dr. Resina Rodrigues, irmão do meu grande professor Pe. João Resina Rodrigues, foi-se dando por vencido, ao perceber a sua impotência no caso. Era inoperável. Anos mais tarde calhou-me a mim a sorte das urgências da CUF, com suspeita de tumor cerebral. Já conhecia o João LA melhor, entrevistei-o duas vezes e convivi com dois irmãos seus. No meio do que me pareceu uma trombose, saí para a rua a arrastar uma das pernas, meti-me num táxi e fui para a CUF. Não queria repetir o insucesso em encontrar o João LA no caso da Mafalda. E lá estava ele à minha espera, eu paralisado já do lado direito, boca à banda. Olhou para a TAC e falou comigo. Se tens um tumor temos de tirar, mas eu penso que não tens. Para já, tens de sair para sempre do sítio e das pessoas que te fizeram isto. Deu-me um papel e uma caneta para escrever o meu nome e eu não consegui nem a primeira letra. Um mês longe de casa, bem longe arranjar uma nova vida em Lisboa. Depois chamou a mulher com quem eu estava casado e perguntou-lhe o que é que você lhe fez. Fui para Guimarães e nas minhas costas ela fez-me o pior, estabeleceu as bases da minha ruína sem qualquer pudor. O João LA chegou lá primeiro, depois aprendi a viver com a hidrocefalia que pelos vistos tenho desde que nasci. Não sei se estou a faltar-lhe nalguma coisa por estar a revelar pela primeira vez uma conversa privada, mas é a forma que encontro para fazer uma homenagem ao médico gigante e ao grande amigo que soube ser. Encontramo-nos aí em cima, João. Obrigado.
João Lobo Antunes
Nada nem ninguém segura uma pessoa quando o destino e a morte a reclamam de forma veemente. A Mafalda escapou-se-nos por entre os dedos em Agosto de 88, com um aneurisma no tronco central do cérebro, no Hospital de S. José. As primeiras mãos em que toquei, o primeiro beijo, a primeira casa, o casamento daí a três meses. Tentámos encontrar o João LA mas ele estava de férias. O Dr. Resina Rodrigues, irmão do meu grande professor Pe. João Resina Rodrigues, foi-se dando por vencido, ao perceber a sua impotência no caso. Era inoperável. Anos mais tarde calhou-me a mim a sorte das urgências da CUF, com suspeita de tumor cerebral. Já conhecia o João LA melhor, entrevistei-o duas vezes e convivi com dois irmãos seus. No meio do que me pareceu uma trombose, saí para a rua a arrastar uma das pernas, meti-me num táxi e fui para a CUF. Não queria repetir o insucesso em encontrar o João LA no caso da Mafalda. E lá estava ele à minha espera, eu paralisado já do lado direito, boca à banda. Olhou para a TAC e falou comigo. Se tens um tumor temos de tirar, mas eu penso que não tens. Para já, tens de sair para sempre do sítio e das pessoas que te fizeram isto. Deu-me um papel e uma caneta para escrever o meu nome e eu não consegui nem a primeira letra. Um mês longe de casa, bem longe arranjar uma nova vida em Lisboa. Depois chamou a mulher com quem eu estava casado e perguntou-lhe o que é que você lhe fez. Fui para Guimarães e nas minhas costas ela fez-me o pior, estabeleceu as bases da minha ruína sem qualquer pudor. O João LA chegou lá primeiro, depois aprendi a viver com a hidrocefalia que pelos vistos tenho desde que nasci. Não sei se estou a faltar-lhe nalguma coisa por estar a revelar pela primeira vez uma conversa privada, mas é a forma que encontro para fazer uma homenagem ao médico gigante e ao grande amigo que soube ser. Encontramo-nos aí em cima, João. Obrigado.
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Sobre amor e desejo
Na língua natural do amor:
Au bout de l’amour il y a l’amour.
Au bout du désir il n’y a rien.
L’amour n’a ni commencement ni fin.
Il ne naît pas, il ressuscite.
Il ne rencontre pas. Il reconnaît.
Il se réveille comme après un songe
Dont la mémoire aurait perdu les clefs.
Il se réveille les yeux clairs
Et prêt à vivre sa journée.
Mais le désir insomniaque meurt à l’aube
Après avoir lutté toute la nuit.
Parfois l’amour et le désir dorment ensemble.
Et ces nuits-là on voit la lune et le soleil.
(Liliane Wouters)
Au bout de l’amour il y a l’amour.
Au bout du désir il n’y a rien.
L’amour n’a ni commencement ni fin.
Il ne naît pas, il ressuscite.
Il ne rencontre pas. Il reconnaît.
Il se réveille comme après un songe
Dont la mémoire aurait perdu les clefs.
Il se réveille les yeux clairs
Et prêt à vivre sa journée.
Mais le désir insomniaque meurt à l’aube
Après avoir lutté toute la nuit.
Parfois l’amour et le désir dorment ensemble.
Et ces nuits-là on voit la lune et le soleil.
(Liliane Wouters)
sábado, 8 de setembro de 2018
Ama-se a palavra
"Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas".
Agustina Bessa Luís, Contemplação carinhosa da angústia, Guimarães Editores, 2000.
Agustina Bessa Luís, Contemplação carinhosa da angústia, Guimarães Editores, 2000.
domingo, 26 de agosto de 2018
Espaços
Para quem está há muito confinado a uma gaiola, o mundo exterior, sem prisões, é medonho ou mesmo mortal. Mas as gaiolas não têm janelas, o interior é também o exterior. Estar confinado é opção. Muitas vezes a mais confortável. É por isso que a clausura não deve escandalizar ninguém. E não há maior escândalo que a liberdade.
(RdP)
(RdP)
domingo, 19 de agosto de 2018
Arigato não é obrigado em japonês
Arigato em japonês, obrigado em português, mas etimologias radicalmente diferentes. Arigato vem de arigatai, ari/aru quer dizer ser/existir, gatai quer dizer difícil de fazer. O nosso obrigado vem do latim obligatus e significa uma espécie de dívida pessoal, e por isso tem género, obrigado e obrigada. Arigato é uma palavra japonesa muito antiga, remonta a muito mais tempo do que a chegada dos portugueses ao Japão. É por isso errado atribuir-lhe influência nossa.
domingo, 8 de julho de 2018
Condições-fronteira
Vivo entre dois nadas, o dos afectos inconfessos e o da gratidão impossível de exprimir.
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