domingo, 8 de julho de 2018
Condições-fronteira
Vivo entre dois nadas, o dos afectos inconfessos e o da gratidão impossível de exprimir.
segunda-feira, 25 de junho de 2018
Fadinha que andou outrora
Parabéns. Há 30 anos exactos dançámos pela última vez, depois dançámos as vezes que quisemos, sempre que quisemos. Mas nunca mais te acendi as velas nem o sorriso nem o olhar. Talvez por isso nunca mais dançámos. O piano da avó ficou quieto, o teu quarto deixou de cheirar a pincéis húmidos. Trinta anos e ainda não tenho coragem de te chorar. Trinta anos e ainda não disse que merda de vida.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
"Tanto de meu estado me acho incerto"
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Sou mar.
Por debaixo de minha casa corre um fio que sai de mim e está sempre no mar.
Eu.
Beijo salgado, abraço concha, coração cavalo-marinho, mãos areia.
Eu.
Beijo salgado, abraço concha, coração cavalo-marinho, mãos areia.
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
Deus brinca
"(...) Não me perguntes porque se mata o sol na lâmina dos dias e o meu mundo continua à tua espera, houve sempre coisas de esguelha nas paisagens e amores imperfeitos; Deus tem as mãos grandes."
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
A ilusão do cedo
Acordar antes do amanhecer é uma das muitas graças do inverno. A sensação do dia maior e da noite que me perscruta. A vantagem de ver com os próprios olhos todo um mundo que continua na sua girândola, os jogos e as pessoas, interditos, e a dizer-me ao ouvido não fazes falta.
(PaT)
(PaT)
domingo, 7 de janeiro de 2018
Epifanias
África, Ásia, Europa. A proveniência dos três reis magos e os únicos reinados então conhecidos, anunciados no salmo, vagamente descritos no relato do evangelho de S. Mateus. Entretanto avançou-se muito no estudo e fundamentação da que foi a primeira revelação universalmente aceite de um messias. Consta dos escritos de todas as confissões religiosas, gurus e líderes espirituais. Claro que ter nascido é fundador, mas é notável que se conheça a história do que primeiro o anunciou, S. João Baptista. E claro que nem sequer teríamos sabido do nascimento se não tivesse sido revelado e transmitido. Siddartha e Krishnamurti são grandes líderes espirituais e os seus conhecimentos e filosofias permanecem. Mas nesta questão do nascimento de João Baptista e J.C. existe a enorme novidade de ter convivido e crescido com os demais. A epifania foi a primeira notícia globalmente difundida na história. Depois instalou-se a torrente dos juízos e razões dos homens, perfeitamente previsível. Tenho pena, intimamente gostava que fôssemos mais pacíficos e menos cartesianos. Mas isso, como tudo o resto, é subsidiário e único em cada um. A partir da epifania, ficámos mesmo por nossa conta.
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