sábado, 6 de setembro de 2014

Num corredor junto ao mar


"Duas pedras de sal desalinhadas, o vento a única força, o tempo a única dimensão. Mar. Claro que chove, dentro e fora da onda que se me enrola em volta, morre e desfaz nas tuas mãos. Às vezes a água é isto, toda mar toda cristal. Indiferente às mãos que lhe ponho dentro. Rio e mar, pressuposto e fim que é onda e volta. Volta sempre porque sempre aqui esteve. Palavra que pedras de sal". (M. Mar)

domingo, 17 de agosto de 2014

A Viagem dos Cem Passos

Todas as experiências são individuais. Todo o percurso é solitário. Um filme que para lá das referências óbvias e directas, consegue entrar no mausoléu dos amores imaginados. A massa densa do tempo obriga-me a sentir o éter do mundo à minha volta. É difícil continuar. Mas continuo. Continuarei. Sei que não há histórias como a do filme, mas era exactamente essa a história que eu queria, a do filme.  Afinal, não precisamos de companhia, só de nos sentirmos acompanhados.

Sendo o título original "The Hundred-foot journey", ou seja, a viagem dos cem pés, não sei onde desencantaram a viagem dos cem passos. 

domingo, 6 de julho de 2014

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Je voudrais pas crever

Je voudrais pas crever
Avant d'avoir connu
Les chiens noirs du Mexique
Qui dorment sans rêver
Les singes à cul nu
Dévoreurs de tropiques
Les araignées d'argent
Au nid truffé de bulles
Je voudrais pas crever
Sans savoir si la lune
Sous son faux air de thune
A un coté pointu
Si le soleil est froid
Si les quatre saisons
Ne sont vraiment que quatre
Sans avoir essayé
De porter une robe
Sur les grands boulevards
Sans avoir regardé
Dans un regard d'égout
Sans avoir mis mon zobe
Dans des coinstots bizarres
Je voudrais pas finir
Sans connaître la lèpre
Ou les sept maladies
Qu'on attrape là-bas
Le bon ni le mauvais
Ne me feraient de peine
Si si si je savais
Que j'en aurai l'étrenne
Et il y a z aussi
Tout ce que je connais
Tout ce que j'apprécie
Que je sais qui me plaît
Le fond vert de la mer
Où valsent les brins d'algues
Sur le sable ondulé
L'herbe grillée de juin
La terre qui craquelle
L'odeur des conifères
Et les baisers de celle
Que ceci que cela
La belle que voilà
Mon Ourson, l'Ursula
Je voudrais pas crever
Avant d'avoir usé
Sa bouche avec ma bouche
Son corps avec mes mains
Le reste avec mes yeux
J'en dis pas plus faut bien
Rester révérencieux
Je voudrais pas mourir
Sans qu'on ait inventé
Les roses éternelles
La journée de deux heures
La mer à la montagne
La montagne à la mer
La fin de la douleur
Les journaux en couleur
Tous les enfants contents
Et tant de trucs encore
Qui dorment dans les crânes
Des géniaux ingénieurs
Des jardiniers joviaux
Des soucieux socialistes
Des urbains urbanistes
Et des pensifs penseurs
Tant de choses à voir
A voir et à z-entendre
Tant de temps à attendre
A chercher dans le noir

Et moi je vois la fin
Qui grouille et qui s'amène
Avec sa gueule moche
Et qui m'ouvre ses bras
De grenouille bancroche

Je voudrais pas crever
Non monsieur non madame
Avant d'avoir tâté
Le goût qui me tourmente
Le goût qu'est le plus fort
Je voudrais pas crever
Avant d'avoir goûté
La saveur de la mort...

Boris Vian

sábado, 10 de maio de 2014

Alexandra

AlexandraHá pequenas aves que têm raízes nas palavras, 
essas palavras que não ficam arrumadas com decência 
na literatura, 
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras. 
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo 
como se tivesse nascido o dia e uma brisa 
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir 
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul. 
Quando volto para casa o teu nome vai comigo 
e ao mesmo tempo espera-me já 
numa casa construída com dois nomes, 
como se tivesse duas frentes, 
uma para a montanha e outra para o mar. 
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu, 
espreito então pelas janelas de onde 
se vêem coisas que nunca antes tinha visto, 
coisas que adivinhava mas que não sabia, 
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar. 
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar, 
e os meus olhos são justamente a pronúncia do 
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado, 
um som pequeno como um roçagar de asas 
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala 
e criam raízes fundas nas palavras vulgares 
que os vulgares amantes engrandecem 
quando falam de amor. 

Joaquim Pessoa, in 'Guardar o Fogo' 


sexta-feira, 2 de maio de 2014

O mundo aos pés da saudade

"Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno!" (Baudelaire)

Sempre me pareceste gigante e sempre achei que te afastarias. Afinal não, estás perto, muito perto. Afinal estiveste sempre aqui. Rodando no teu eixo, imponderável, como fazem os planetas. A saudade é tudo. Palavra que gigante.