segunda-feira, 20 de março de 2023

DSA #5 - acordar difícil

Penso que é hoje que as coisas vão ser mais difíceis. Mas nada do tremor essencial anunciado. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

11/8/88 - O fim

Acordar e ficar na mais profunda solidão.

Vamos desligar, a menina está muito mal.

Vou para casa da minha mãe, disse o teu pai,

Fiquei sozinho a rezar.

Adeus fadinha.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

10/8/88 - Chegou a noite

Ficámos apenas eu e o teu pai.

Foi tudo embora, a vigília não acalentava mais os ânimos.

Começou a minha conversa mais intensa e íntima com Deus, que perdura.

O teu pai numa poltrona, eu noutra, entregámo-nos ao silêncio.

Adormecemos.

10/8/88 - Aceitar

Dormi nas camaratas do pessoal de S. José, aliás como ontem. 

A primeira coisa que fiz foi ir à UCI ver como estavas.

Tensão intracraniana estável mas alta, e o coágulo na mesma.

Não tive coragem de te tocar nem falar contigo.

Pe. Feytor Pinto veio a meio da manhã e preparou-me para a tua partida definitiva.

Depois da visita os instrumentos indicavam apaziguamento. 

Disseram-me que serenaste. Aceitaste.

Tentei olhar para o resto da minha vida mas não via nada.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

8/8/88

Numa Segunda, como hoje.

Antes de tudo, logo de manhã a luz cortada em casa, um pai a fugir de táxi em táxi para não pagar.

Biblioteca da Gulbenkian. Serenar.

Fechou. Fomos para casa. Estivemos juntos.

Uma mãe a pedir para não estarmos, esperava alguém.

Não estavas bem.

Fomos jantar casa meus pais.

Reunião Racionalismo.

Filme. Eu não existo nem nasci em parte alguma. Era assim que eu gostava que a minha vida tivesse sido. Não gostei.

De repente a dor aguda. Liga para o meu pai.

Liguei.. Leva-a ambulância para S. José. Levei-te.



sexta-feira, 24 de junho de 2022

Sessenta

Fazes hoje.

Falámos muitas vezes deste dia,

Dos cabelos brancos,

Da mãe do João Pedro

E do quanto admiravas a sua paz,

A forma como envelheceu,

Querias envelhecer como ela.

Era o tempo em que nem pensávamos nisso.

Mas hoje não é dia de pensar no impensável,

É dia de festejar.

Navego aparentemente sozinho,

Em barcos emprestados,

Nada é meu nem quero nada

Senão hoje sentar-me quieto contigo

E dar-te um beijo de parabéns.

Até sempre. Até já.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Vida sem morte

Viver mas só mesmo se tiver de ser.

As folhas nas árvores os frutos maduros

A criança no baloiço.

O carro ao longe e o ruído com cheiro

O pó irritado cria e apaga o rasto

A nuvens que mudam.

O aparo que parte no papel

As muitas cartas de amor,

Escrevê-las quando está ao lado

E quando o fio corre por debaixo.

Cheiro a cinzas, canela e jasmim

E os figos três horas em natas,

A bóina com as marcas dos dedos

O chão sem peso

O tomilho-limão

E o leite-creme de alfazema.


O que é eterno já está.

Posso morrer.