Ficámos apenas eu e o teu pai.
Foi tudo embora, a vigília não acalentava mais os ânimos.
Começou a minha conversa mais intensa e íntima com Deus, que perdura.
O teu pai numa poltrona, eu noutra, entregámo-nos ao silêncio.
Adormecemos.
Ficámos apenas eu e o teu pai.
Foi tudo embora, a vigília não acalentava mais os ânimos.
Começou a minha conversa mais intensa e íntima com Deus, que perdura.
O teu pai numa poltrona, eu noutra, entregámo-nos ao silêncio.
Adormecemos.
Dormi nas camaratas do pessoal de S. José, aliás como ontem.
A primeira coisa que fiz foi ir à UCI ver como estavas.
Tensão intracraniana estável mas alta, e o coágulo na mesma.
Não tive coragem de te tocar nem falar contigo.
Pe. Feytor Pinto veio a meio da manhã e preparou-me para a tua partida definitiva.
Depois da visita os instrumentos indicavam apaziguamento.
Disseram-me que serenaste. Aceitaste.
Tentei olhar para o resto da minha vida mas não via nada.
Numa Segunda, como hoje.
Antes de tudo, logo de manhã a luz cortada em casa, um pai a fugir de táxi em táxi para não pagar.
Biblioteca da Gulbenkian. Serenar.
Fechou. Fomos para casa. Estivemos juntos.
Uma mãe a pedir para não estarmos, esperava alguém.
Não estavas bem.
Fomos jantar casa meus pais.
Reunião Racionalismo.
Filme. Eu não existo nem nasci em parte alguma. Era assim que eu gostava que a minha vida tivesse sido. Não gostei.
De repente a dor aguda. Liga para o meu pai.
Liguei.. Leva-a ambulância para S. José. Levei-te.
Fazes hoje.
Falámos muitas vezes deste dia,
Dos cabelos brancos,
Da mãe do João Pedro
E do quanto admiravas a sua paz,
A forma como envelheceu,
Querias envelhecer como ela.
Era o tempo em que nem pensávamos nisso.
Mas hoje não é dia de pensar no impensável,
É dia de festejar.
Navego aparentemente sozinho,
Em barcos emprestados,
Nada é meu nem quero nada
Senão hoje sentar-me quieto contigo
E dar-te um beijo de parabéns.
Até sempre. Até já.
Viver mas só mesmo se tiver de ser.
As folhas nas árvores os frutos maduros
A criança no baloiço.
O carro ao longe e o ruído com cheiro
O pó irritado cria e apaga o rasto
A nuvens que mudam.
O aparo que parte no papel
As muitas cartas de amor,
Escrevê-las quando está ao lado
E quando o fio corre por debaixo.
Cheiro a cinzas, canela e jasmim
E os figos três horas em natas,
A bóina com as marcas dos dedos
O chão sem peso
O tomilho-limão
E o leite-creme de alfazema.
O que é eterno já está.
Posso morrer.
A solidão profunda em que vivo há vinte anos é a prova de que existe afinal um deus que me ama e perscruta. Na verdade, a experiência do silêncio absoluto é vocativa e musical em mim. Confundi-a cedo demais com vocação.