segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Pax 2 - Annecy

Depois de perceber que estava confirmado nos meus avanços modestos e solitários em direcção ao doutoramento, ratificados pelo grupo de raciocínio espácio-temporal em que tinha acabado de ser confirmado, fui entregar-me aos prazeres da mesa num restaurante ultra-clássico mas onde havia excelentes vinhos. Abri uma garrafa de Clerc-Millon 1986 e do resto não me lembro, só me lembro de que saí cerca das 6 da tarde e que o jantar de gala da conferência era daí a pouco mais de uma hora. Foi só o tempo de ir ao meu mau hotel tomar um banho, mudar de roupa e dirigir-me ao chateau onde ia acontecer o tal jantar de gala. Logo que cheguei, arrependi-me mil vezes de me ter inscrito para o jantar, mas enfim, esperava-me dois dias depois um período de fantasia em Montreux, onde na qualidade de jornalista especialista de Tecnologias de Informação, tinha um hotel de 5 estrelas à minha espera.
Conheci a Irene. Venezuelana, cientista como eu, sobrinha da Isabel Allende, mil histórias para me contar e eu a ela. Passámos por cima do jantar e de tudo, combinámos secretamente ir a Annecy na noite seguinte. E fomos. E ainda não sei se voltámos.

Pax 1 - Chambéry

A bienal de inteligência artificial de 93 encerrou a minha vida científica, com a validação de que precisava do meu trabalho de doutoramento. A minha euforia ao ouvir isso mesmo na reunião do meu grupo de interesse em relação aos resultados que tinha conseguido fez-me sentir nas nuvens e só tinha cabeça para sair da conferência e vaguear por Chambéry com a minha máquina ao pescoço. Entrei em prédios, casas, meti por ruelas e becos, fiz a viagem de celebração ali mesmo e aprendi a libertar-me de duas relações muito erradas em que estava. Voltei e volto sempre que posso, ali todo o percurso calcorreado é também percurso interior. Revisito-me, por isso.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Luz e âmago.


Vê-se melhor o âmago quando a luz o atravessa. No vinho e nas pessoas.

No vinho devemos aproximar-nos dos vinhos matizados e bem definidos. Nas pessoas devemos aproximar-nos apenas das que nos mostram a luz através delas.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Ser gaivota


Fotografei o céu sem olhar para ele,
Chovia no ínfimo templo marginal.
E a gaivota impermeável permanecia.
Não veio ver-me, nem fugiu.

O espaço marítimo fez-se nuvem dentro
E no meu peito nada para pescar.
Mas objectos mais vivos que o coração
E a alva ave perscrutava-os.

Uma esfera perfeita de madeira
Com música dentro, a pedra
Rolada do rio alvo como o pássaro.

As folhas de quercus palustris
E o rosário de penas. Leve.
Pela primeira vez sou importante.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Px Nuvens

É preciso saber de cor uma nuvem para a conseguir pintar. Para a fotografar é preciso mais, construir todo o seu mapa. Só então se percebe que a dificuldade vem de no seu âmago a turbulência ser o único fenómeno sensível. Conhecê-la passa a ser admitir a sua mutação.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

RdP Permanecer e preservar

Vim do funeral com a ideia fixa de num caixote daqueles da rua deitar tudo o que podia lembrar-me dela viva. A única coisa que queria viva em mim era a memória dela, de nós e do que podíamos ter sido. As aguarelas, os pequenos papelinhos, as fotografias, os slides, foi tudo. A cada ano que vai passando acho que fiz muito bem. Não havia nada para mostrar, assim como não há. A latência de uma coisa muito viva, de uma ferida que não era nem é para sarar, era isso que queria que permanecesse. Tudo o que realmente aconteceu e senti ficou intacto em mim. Que é onde deve estar.

segunda-feira, 4 de março de 2019

MdM

“(…) Pomos os olhos nas extremas imaginadas das paisagens planas e distantes, aprendemos desde pequenos que isso é bom. O mar. A planura. As serras lá ao fundo. O casario reticulado e indistinto. Tendemos a ficar, tal é a sensação de que é aí que está um certo deus, tal como a noite a que damos as boas vindas e nos entregamos pacificamente. Antes dessa recompensa temos o tempo e o trabalho de ver o chão que pisamos e se é o nosso ou o que roubámos a alguém, mesmo sem saber. Logo a seguir, ver se chegámos ali naturalmente ou se acotovelámos alguém para encaixar. É que só no que verdadeiramente nos pertence pode cair a gota de sangue. De nada adianta o belo que nos rodeia se não lhe pertencemos. (…)” MdM