(...) "Que idade, tempo, o espanto
De ver quão ligeiro passe,
Nunca em mim puderam tanto,
Que, posto que deixe o canto,
A causa dele deixasse." (...)
Camões, Babel e Sião
sábado, 14 de janeiro de 2017
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
sábado, 7 de janeiro de 2017
Fiz figura de corpo presente
Fiz figura de corpo presente, que era
a única figura que eu sabia fazer.
O corpo estava presente, a alma não,
a alma tinha ido dar uma volta, a alma
tinha morrido. Não podia portanto
tê-la comigo de cada vez que era
preciso ficar, também não era preciso
falar, era só preciso ficar, por isso
não fazia mal. Sem alma o corpo
criava o tom de uma cor desapercebida.
Coisa visivelmente de outro tempo,
simbolista, renascentista, ou outra coisa
qualquer, tudo servia para me atirares
à cara que eu já não era deste tempo.
Embora por soalho e tecto sons de hoje
levantem tábuas no soalho, estalem
tectos. Esses sons, que são de ferro
e água, batem no sangue com descarada
arritmia, até que as pálpebras se fecham
e eu me lembro outra vez que sou
corpo. Sem alma. Mas abdicou a alma
de mim, abdiquei eu dela? Calma,
assim não vamos a lado nenhum.
A alma é sem dúvida um tema
muito interessante, mas eu não consigo
dar-me a quem não vê a guerra total
e persistente, o vazio controlado
pela ignorância, os crimes impunes,
a sombra cinzenta no futuro da humanidade,
a hipótese do grande estoiro final.
E insistes em falar-me da alma.
E de ajustes de contas, e do silêncio
quando as portas se fecham e ali
ficas, de mãos cruzadas sobre o peito
e com a merda de um sorriso arrogante
ainda a bailar nos lábios roxos.
Hélder Moura Pereira
a única figura que eu sabia fazer.
O corpo estava presente, a alma não,
a alma tinha ido dar uma volta, a alma
tinha morrido. Não podia portanto
tê-la comigo de cada vez que era
preciso ficar, também não era preciso
falar, era só preciso ficar, por isso
não fazia mal. Sem alma o corpo
criava o tom de uma cor desapercebida.
Coisa visivelmente de outro tempo,
simbolista, renascentista, ou outra coisa
qualquer, tudo servia para me atirares
à cara que eu já não era deste tempo.
Embora por soalho e tecto sons de hoje
levantem tábuas no soalho, estalem
tectos. Esses sons, que são de ferro
e água, batem no sangue com descarada
arritmia, até que as pálpebras se fecham
e eu me lembro outra vez que sou
corpo. Sem alma. Mas abdicou a alma
de mim, abdiquei eu dela? Calma,
assim não vamos a lado nenhum.
A alma é sem dúvida um tema
muito interessante, mas eu não consigo
dar-me a quem não vê a guerra total
e persistente, o vazio controlado
pela ignorância, os crimes impunes,
a sombra cinzenta no futuro da humanidade,
a hipótese do grande estoiro final.
E insistes em falar-me da alma.
E de ajustes de contas, e do silêncio
quando as portas se fecham e ali
ficas, de mãos cruzadas sobre o peito
e com a merda de um sorriso arrogante
ainda a bailar nos lábios roxos.
Hélder Moura Pereira
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Morreu John Berger
John Berger morreu ontem, e eu hoje tenho quase só isto para dizer. (Felizmente as palavras são suas)
"O meu coração nasceu nu
envolto em canções de embalar.
Posteriormente, fez de
poemas as suas vestes.
Tal qual uma camisa
que carrego nas costas
a poesia tenho lido.
Então vivi por meio século
até que em silêncio nos conhecemos.
Da minha camisa sobre a cadeira
esta noite aprendi
quantos anos
de estudo aturado
eu esperei por ti."
"O meu coração nasceu nu
envolto em canções de embalar.
Posteriormente, fez de
poemas as suas vestes.
Tal qual uma camisa
que carrego nas costas
a poesia tenho lido.
Então vivi por meio século
até que em silêncio nos conhecemos.
Da minha camisa sobre a cadeira
esta noite aprendi
quantos anos
de estudo aturado
eu esperei por ti."
domingo, 1 de janeiro de 2017
Da bondade da solidão
"Seja o canto de um candeeiro ou a voz da tempestade, seja o respirar da noite ou o gemido do mar que te rodeia – sempre desperta por trás de ti uma vasta melodia, tecida por mil vozes, na qual só aqui e ali há espaço para fazer um solo. Saber quando é a tua vez – eis o segredo da solidão.”
"A melodia das coisas", R.-M. Rilke
"A melodia das coisas", R.-M. Rilke
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
Para um amigo tenho sempre um relógio
"Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol."
António Ramos Rosa
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol."
António Ramos Rosa
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Era preciso
Era preciso que eu fosse outro
e os outros de outra maneira.
Era preciso que o fio que escorre
Fosse pranto do lagar que ferve.
e os outros de outra maneira.
Era preciso que o fio que escorre
Fosse pranto do lagar que ferve.
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