sábado, 10 de maio de 2014

Alexandra

AlexandraHá pequenas aves que têm raízes nas palavras, 
essas palavras que não ficam arrumadas com decência 
na literatura, 
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras. 
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo 
como se tivesse nascido o dia e uma brisa 
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir 
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul. 
Quando volto para casa o teu nome vai comigo 
e ao mesmo tempo espera-me já 
numa casa construída com dois nomes, 
como se tivesse duas frentes, 
uma para a montanha e outra para o mar. 
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu, 
espreito então pelas janelas de onde 
se vêem coisas que nunca antes tinha visto, 
coisas que adivinhava mas que não sabia, 
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar. 
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar, 
e os meus olhos são justamente a pronúncia do 
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado, 
um som pequeno como um roçagar de asas 
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala 
e criam raízes fundas nas palavras vulgares 
que os vulgares amantes engrandecem 
quando falam de amor. 

Joaquim Pessoa, in 'Guardar o Fogo' 


sexta-feira, 2 de maio de 2014

O mundo aos pés da saudade

"Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno!" (Baudelaire)

Sempre me pareceste gigante e sempre achei que te afastarias. Afinal não, estás perto, muito perto. Afinal estiveste sempre aqui. Rodando no teu eixo, imponderável, como fazem os planetas. A saudade é tudo. Palavra que gigante.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Epílogo

(...)
Obrigado pela Natureza, a Mãe
Que fez bela e forte.
Obrigado pela irmã Vida,
Obrigado pela irmã Morte.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

quinta-feira, 3 de abril de 2014

É preciso instalar o mar

(Foto Luis Pons, bailarina Rachelle di Stasio)

Aquilo de que a espuma é feita existe na força com que a cavidade recôndita da rocha retém a onda que acaba de rebentar. Permanece.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pai.


Há 5 anos, foi a última vez que estive com o meu Pai. Telefonei-lhe a dizer que gostava de almoçar com ele, "claro, alguma razão especial?", estava desmemoriado, não tinha a noção de que era o dia do Pai. O almoço foi quase um solilóquio, o meu Pai olhava fixamente pela janela, como que para nenhures. Baralhado, repetiu 5 ou 6 vezes as mesmas coisas. Morreu num colapso total e súbito, em casa a trabalhar, no dia 30 de Março, 11 dias depois de o ter visto pela última vez.
Ao "Eduardo dos Livros", em Campo de Ourique iamos todos os sábados de manhã, tinha eu 7 anos, buscar os fascículos das muitas colecções que o meu Pai gostava de fazer e encadernar. Comprávamos cromos das muitas cadernetas que eu ia preenchendo. A revista Tintin não falhava, lembro-me bem de ler na capa "para jovens dos 7 aos 77 anos". Faria este ano 76.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Mulher

Fio.
Espuma de mar desmaiado na rocha.
Espelho de duas faces.
Fumo de alecrim.
Lima-limão.
Dó menor.
Pé.
Joelho.
Barolo.

Exercício de um minuto.